Teatro sem platéia

Exposição de Luciana Petrelli

Curadoria: Juliana Crispe

Luciana Petrelli cria um teatro sem plateia, torna-se observadora dos seus atos e investiga um processo criativo que parte do mergulho de si durante o isolamento social.

A artista Luciana Petrelli tem como meio para suas produções, elementos da natureza e o feminino como temporalidades que se deslocam no agora, revisitam as memórias e retornam em transformações. Rompendo padrões enrijecidos em sua formação fotográfica, a artista permite-se arriscar pela experimentação, num reinventar-se visível em sua caminhada.

As obras aqui apresentadas têm uma relação íntima com a natureza e com o olhar para o feminino, em metamorfoses, simbioses entre corpos ora com identidades, ora acéfalos, em que o rosto parece não ser o elemento principal que desdobra a subjetividade em multiplicidades, no ver-se para além da face, um corpo rizomático que está em rede e extensão.

Em uma produção quase sempre permeada pela linguagem fotográfica, Luciana questiona as relações com a natureza, trazendo elementos míticos, carregados de rituais, fabulações, ramificações, em um sistema que nos faz emergir na relação com as mudanças da natureza, que conectam os fluxos e refluxos transferidos pelos diferentes semblantes nos quais as imagens sugerem. Sejam nas performatividades ou nas imagens que desacomodam a natureza, como em uma grande feitiçaria, há a transmutação dos elementos que compõem as obras produzidas pela magia realizada pela artista, como em sabedorias antigas, trazidas nas relações com a ancestralidade e com curar pela terra e pela conexão consigo mesma e com o outro, que percebe os monstros e os renascimentos possíveis.

 

Juliana Crispe

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Série Teatro sem Plateia

Luciana Petrelli

Entre Março e Outubro de 2020

Técnica Fotografia Digital

Tamanhos variados

Texto da artista:

Devaneios; como sonhos, imagens surgem para decifrar enigmas. As escolhas dos elementos complementam a cena compondo o ato de atuar como expressão do Outono. Enquanto a natureza apresenta suas variações, iluminadas pela luz e as sombras projetadas nas cortinas, minhas pálpebras protegem meus olhos, que se voltam para o interior do meu corpo e neste ambiente, uma nova morada se apresenta.

 

Incertezas; condição que estabelece o estado de angustia. Estar entre emoções sem compreender o estado de cada uma delas gera aflição. Neste ato eu me observo e me contraio sem alterar minha condição humana de sentir, somente o contato com a natureza atenua a tensão e cria uma simbiose entre meu corpo e o casulo, identificação que se dá em metamorfose.

 

O salto: abro asas e voo. O tempo, este que de tanto marcar presença desapareceu nos deixando em suspenso, possivelmente livres para descortinar nossas sombras e presenças da luz em quem somos. Estamos estranhamente ao revés do conhecido, como por entre cortinas entramos em uma nova morada, a nossa, aquela a qual estamos ha tempos desconectados. Tomada de assalto e sob efeito deste salto, descortino outros lugares em mim e nesse transito sem ouvintes, faço uma escolha, voltar para o interior da minha casa e me reencontro. 

 

Ao performar as muitas que sou, à semelhança de um teatro sem platéia, tornei-me observadora dos meus atos. A partir do contexto inédito de isolamento - sem desvios ou subterfúgios - a escolha foi reinventar a rotina neste tempo suspenso no qual os dias e as horas só contam pelo excesso ou apatia. Em busca das re-descobertas sobre sentidos e memórias, sobre a vida e sua finitude, sobre o tempo e seu legado, sobre abstrações e amores, instalei-me entre os limites da minha morada - meu espaço de intimidade - e a natureza circundante, com suas inerentes variações. O meu corpo performático torna-se o fio condutor entre mundos: o interior e o exterior interpelam às forças naturais e à criação. Cortinas desse palco cênico movimentam-se como pálpebras e, entre o sono e a vigília, sugerem imagens oníricas ou memórias atualizadas que me reafirmam escolhas e prazeres de ser quem sou ou posso ser.

Luciana Petrelli


Vídeo: Teatro sem Plateia, Luciana Petrelli, 2020

Composição e trilha sonora: Gaia Wilmer

Edição do vídeo: Gaia Wilmer

Essa exposição faz parte do evento MULHER ARTISTA RESISTE – 2ª edição

 

TEATRO SEM PLATEIA
Artista: Luciana Petrelli

Curadoria: Juliana Crispe

Produção Cultural das exposições em Artes Visuais: Lorena Galery

 

Realização: Espaço Cultural Armazém - Coletivo Elza

Coordenação Geral: Gika Voigt, Juliana Crispe e Virgína Vianna

Organização Coletiva e curadoria compartilhada: Grupo de Trabalho MULHER ARTISTA RESISTE

Patrocínio: edital #SCULTURAEMSUACASA, da Fundação Catarinense de Cultura, Governo do Estado de Santa Catarina

Apoio: Abrasabarca, Coletivo Compor, Gandaia Films, Mulamba, Potlach Editora e Grupo Articulações Poéticas

Produção: Gika Voigt Produz

Vinheta: Gandaia Films (com música da banda Mulamba)

Equipe técnica: Gika Voigt e Marianella Colucci

Equipe de comunicação: Gika Voigt, Juliana Ben, Juliana Crispe, Lorena Galery, Marianella Colucci  e Virgína Vianna