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Rastros da infância

(In)pressões e espelhamentos:

quando reflito sobre Campo Belo confesso mais sobre mim...

Rit Rosa

Ao ler o conto “Isaltina Campo Belo”, de Conceição Evaristo, alguns aspectos me marcaram de forma contundente, tanto por identificar-me com as questões que ali eu via representadas, quanto por esconderem dores que nos são impostas cotidianamente – impostas a nós que não carregamos a característica do hegemônico, que não somos homens. E digo “não homens” porque isso importa. Isaltina não era homem, ao menos não era socialmente lida dessa forma. Tampouco era mulher, apesar dessa condição ter lhe sido imposta e naturalizada durante toda sua vida. Tampouco eu sou homem ou mulher, e exponho aqui meu lugar de fala, pois isso também é relevante tanto para minhas impressões sobre o texto, quanto para as críticas e reflexões as quais me proponho aqui. Eu sou pessoa branca, criada como mulher, mãe solo, não-binárie, sapatão, autista (PcD). Quando Conceição, através da narradora do conto, recorda algo que esta leu um dia sobre “o porquê de as mulheres negras sorrirem tanto”, me deparo com minha primeira lacuna de interpretação. Conceição não nos dá a resposta, e eu, que nunca vivenciei a negritude na pele, não tenho como alcançá-la.

O conto acompanha o relato de Isaltina Campo Belo a uma ouvinte que não nos é identificada, apenas ficando claro que se trata de duas mulheres negras. Após um abraço inesperado, momento em que ambas riem juntas, a narradora anônima observa “a sonoridade de [seus] risos, como cócegas [nos seus corpos]”. Para mim, há um eco de sororidade e reconhecimento no abraço e no sorriso, uma força de quem compreende e apoia a outra, mas isso eu só posso especular…

O relato de Isaltina segue a cronologia de sua vida, apresentando um panorama sobre sua ancestralidade, antes de adentrar em suas questões tão profundas e íntimas. Resiliência é a palavra que eu usaria para descrever a narrativa, a começar com a história de seus antepassados, os quais eram verdadeiros motivos de orgulho e dignidade para a família, eles que lutaram e trabalharam duramente para conquistar terras e alforria, eles que proporcionaram que os filhos estudassem e, na época de Isaltina, tivessem reconhecimento da comunidade, respeito, confiabilidade. O nome Isaltina significa exatamente disciplina, lealdade, eficiência… Apesar disso, a vivência da personagem não é de dignidade, no sentido de que não foi digna para ela, com ela, não foi algo para se orgulhar, pelo menos não a parte que nos foi narrada. Isaltina carregou em si dores sobre as quais calou por toda uma vida, e sua resiliência reside exatamente em conseguir seguir em frente apesar de tudo. Gênero, sexualidade e maternidade são questões que se interpõem no relato, e sobre isso eu posso falar um pouco mais.

Campo Belo, como a personagem prefere ser chamada, conta com detalhes sobre como se sentia uma pessoa diferente “desde menina”. Na verdade, confessa Campo Belo, ela “era um menino”, e lhe “angustiava o fato de ninguém perceber”. Desde a infância fora forçada (pelos costumes e falta de reconhecimento) a viver de forma diferente da sua identidade íntima. Vivenciou a dor de não ter essa verdade/identidade reconhecida pela família, o que a levou a buscar independência para afastar-se das pressões cisheteronormativas impostas pelos familiares. Mais tarde, precisou suportar a violência sexual de forma calada e ainda gestar e gerar um fruto dessa violência. Aceitar e amar a filha fruto da maternidade forçada foi seu maior exemplo de resiliência (o que não pode ser confundido com superação), assim como encarar a realidade de ser mãe solo, e precisar recomeçar toda a sua vida. No fim, pôde conhecer o amor, e acabou encontrando uma identidade possível, mesmo não sendo a sua identidade íntima. Isso, de viver – talvez pelo cansaço, e muito pela falta de referências e identificações – sob o signo de uma identidade imprecisa, é exatamente por onde quero seguir minhas reflexões.

Do início ao fim, o relato de Campo Belo fala de uma vida atravessada por suas questões com a identidade de gênero e com a sexualidade. A personagem começa contando que desde muito pequena já se percebia como menino, e que esperava que a família, principalmente sua mãe, que era enfermeira, reconhecesse sua diferença. Frustrada com a invisibilidade da sua condição de gênero, e obrigada às convenções e costumes atribuídos às meninas e moças, além das próprias “imposições” do corpo de sexo feminino (como a menstruação), Campo Belo cala “o menino que mora em [si]”, e guarda profundamente essa percepção. Na adolescência, se percebe atraída por garotas, e atribui esse ímpeto ao rapaz que acreditava existir escondido dentro da moça que era.

Mesmo após buscar seu próprio caminho longe da família, Campo Belo continua não se percebendo inteira, vive na solidão e esconde, ainda, sua realidade interna. Na época da faculdade, vivencia novas formas de expectativas quanto ao seu corpo de sexo feminino. Dela é esperado um comportamento sexual de “mulher negra”, que supostamente deveria ter “fogo”, e deveria gostar muito de homens… Do racismo e da heteronormatividade compulsória ao estupro, e deste à gravidez indesejada, e à maternidade imposta: Campo Belo vive na pele todas as pressões feitas aos corpos femininos, mesmo não se reconhecendo mulher. Ao encontrar, pela primeira vez, o olhar de Miríades recaindo sobre si, Campo Belo sente “que o menino que habitava em [si] reapareceu crescido”. No entanto, em meio à realidade vivenciada e à possível, Campo Belo nega esse “homem dentro de si” e entende-se mulher, entende-se portanto lésbica, permitindo-se, assim, desejar uma semelhante.

Quando Campo Belo descobre o amor em Miríades, descobre também uma nova possibilidade de existir no mundo. Durante gerações passadas, fora marcante que as questões de gênero fossem resolvidas através da sexualidade. No conto, a resolução encontrada pela personagem é precisamente essa, e, ao se perceber mulher e lésbica, Campo Belo afirma: “E, de repente, uma constatação me apaziguou. Não havia um menino em mim, não havia nenhum homem em mim”. Isso me leva a um outro questionamento, sobre a escolha das palavras por Evaristo. Pois essa pessoa, que durante toda a sua vida se reconheceu no masculino, que mesmo na tenra infância já se percebia menino, e que fora brutalmente violentada por vários homens, ela não estaria nesse momento afirmando que nenhum outro homem estaria de novo dentro dela? E não estaria, também, negando que sua natureza interna, da qual nos falara desde o princípio de seu relato, estivesse ainda vinculada à ideia do masculino e do “ser homem”, uma vez que foram justamente os homens que se mostraram perigosos e perturbadores?

A cena do estupro, chocante, é narrada em poucas palavras… Campo Belo ainda afirma que a fala pode lhe faltar, mas em sua memória os detalhes daquele momento nunca se apagam. A personagem nos conta que o pretenso (ou pretensioso, como ela mesma diz) namorado, apesar de se mostrar insistente, era compreensivo, e ela achou que tivessem estabelecido uma amizade, pois a ele segredara seus anseios mais íntimos. No entanto, às masculinizadas e às lésbicas, o estupro é a correção que a heteronormatividade lhes reserva. Se ele (esse homem não descrito, não nomeado) não conseguira convencê-la a ceder ao sexo, e assim “a despertar como mulher”, despertar seu fogo “de negra”, então outra medida seria necessária. Armou uma cilada, na qual outros cinco homens desconhecidos a estupraram depois de a drogarem. Onde estava o sexto homem, o suposto amigo/namorado? Estaria assistindo? Estaria presenciando, sadicamente, a armadilha que orquestrara para “fazê-la mulher” a força? Assim como essa parte da narrativa de Campo Belo é breve (diferentemente das consequências, sentidas por toda a vida da personagem), também Evaristo não nos impacta com detalhes desnecessários. Sabemos os fatos, sem detalhes, e toda a margem para a imaginação já é por demais inquietante.

Engravidar, no conto de Conceição Evaristo, nunca fora possibilidade, desejo ou risco para a personagem, e, no entanto, Campo Belo se vê grávida. A maternidade, imposta para nossa personagem, é condição compulsória em nossa realidade, sendo o trabalho reprodutivo uma das bases do sistema capitalista. No caso de Campo Belo, não houve nem a oportunidade de cogitar um aborto, ainda que ilegal e arriscado, pois o estado de alheamento no qual se encontrava não a permitiu perceber a criança que crescia e “se fazia sozinha” dentro de si. Grávida de sete meses, não havia possibilidade a não ser gerar o fruto de uma violência, de um estupro coletivo, o qual a marcou por toda a vida, e sobre o qual nunca havia dito uma palavra antes do relato do conto. Da gravidez à maternidade, despojada de si e de seus anseios, de suas inquietações tão bem guardadas, Campo Belo ama a filha que lhe nasce. É mãe solo, como tantas, e assim como tantas, precisa esquecer-se de si para conseguir sustentar o fardo (nunca dito desse modo) da maternidade em nossa sociedade ainda patriarcal. O amor pela filha deve bastar, precisa bastar. E por ele (e não por si) segue em frente.

A filha, Walquíria, carrega o nome daquelas que, na mitologia nórdica, levavam os heróis mortos para Valhala, o paraíso de Odin. Assim como elas, Walquíria também transportou a “morta” Isaltina, destroçada pelo estupro, à possibilidade de redenção através da conexão e do amor maternos. Digo “Isaltina”, porque imagino que “Campo Belo” foi quem (re)nasceu depois, talvez com a maternidade, talvez com Miríades, talvez com a família que formou... Walquíria foi ainda oportunidade e dádiva, permitindo a uma Campo Belo “esquecida de si” que se reconhecesse e reencontrasse novamente, para então e ao mesmo tempo abrir e conectar-se ao amor, e ser amada por Miríades. Do modo como é apresentada, a maternidade de Campo Belo parece redentora ao mesmo tempo que é resultado de uma violência, a qual representou para a personagem uma punição, um castigo por sua vida “avessa” à normatividade. Seria a maternidade o destino de Campo Belo? Só através da maternidade ela pôde conhecer o amor verdadeiro? O que teria acontecido com sua vida se nunca tivesse sido vítima de violência, se nunca tivesse engravidado? Será que nunca teria conhecido Miríades, o amor de sua vida? A maternidade foi um presente, uma dádiva? Conceição me confunde, assim como me confunde a maternidade que vivencio. Destino, castigo, dádiva… A maternidade em nossa sociedade gera arrependimentos que são alheios ao amor que sentimos pelos filhos, porém ainda é um grande tabu falar sobre isso. Mesmo carregando em seu ventre o fruto de uma violência que a devastou, Campo Belo ama a filha, é devota a ela, se esquece por ela, e através dela obtém a redenção. Mas, nunca, os fins justificam os meios, e ela não teve escolha senão acolher e amar a filha… E redimir a filha de seu pecado original através do olhar amoroso que vê sentido e destino mesmo naquilo que nunca deveria ter sido, por abominável que foi.

Ao iniciar o relato de sua vida, Campo Belo apresenta a filha Walquíria à ouvinte através de uma fotografia. Durante todo o tempo em que faz sua narrativa, o retrato da filha nunca sai de perto delas, e a personagem conta sua história como se o fizesse à sua filha. Campo Belo não contara a ninguém a respeito da paternidade de Walquíria, jamais havia posto em palavras as lembranças daquela noite em que foi violentada. Assim, ao falar sobre isso sob a presença do retrato da filha, é como se Campo Belo confessasse a ela seus segredos mais íntimos, a respeito de sua gestação, de suas dores... Nesse ponto da narrativa, me pergunto onde estaria a fotografia de Walquíria, que cambiava entre ouvinte e narradora, e por vezes estava sob a mesa, a contemplá-las… Em que momentos a filha estaria “longe”, na mesa, e em quais partes da história a mãe a teria perto, em suas mãos? Quando o retrato estaria, oferecido ou apropriado, nas mãos da ouvinte atenta e envolvida? A história que Campo Belo conta se confunde e funde com a história de Walquíria, narrativa da qual essa última fora privada, e que talvez nunca venha a conhecer. Falar a ela através da fotografia é toda a confissão que Campo Belo pode, ou consegue, lhe fazer.

Rit Rosa Florianópolis/SC

É autista, não-binárie, mãe, geógrafa, artista, escritore. Bacharel em Geografia pela UFRGS, tem medo da pós-graduação e, atualmente, é graduanda em Artes Visuais na UDESC. Pesquisadora de derivas fenomenológicas da percepção. Compartilha vivências domésticas e educacionais transfeministas, antipatriarcais e anticapacitistas. Vive atualmente perto do mar, em Florianópolis.

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