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Dos usos da raiva em Conceição Evaristo: 

escrever vivências afetando potências

Luciana Tiscoski

Minha reação ao racismo é raiva. Essa raiva devorou pedaços

da minha existência apenas quando permaneceu silenciada, inútil para qualquer um.

[...]

Minha raiva me causou dor, mas também garantiu minha

sobrevivência, e antes de abrir mão dela vou me certificar de 

que exista algo pelo menos tão poderoso quanto ela e que

possa substituí-la no caminho para a clareza.

Audre Lorde

Escrever sobre qualquer um dos textos de Conceição Evaristo é assumir o compromisso de comunicar, da maneira mais legível, direta e sensível, sem subterfúgios. É se permitir ser afetada, no entanto, sem deixar que a suavidade e a sutileza de sua escrita mascarem as tempestades e os abismos que se avizinham. A escrita não é inocente, a raiva e a revolta podem estar encobertas pela maestria de sua linguagem que quase sorri acolhedora, mas quem lê não pode se deixar levar sem a consciência alerta e constante dessa raiva submersa, que surge muitas vezes transformada em outra coisa. Ler Conceição Evaristo é ter em vista sempre a complexidade literária, política e histórica de sua linguagem simples, de sua oralidade, da corporeidade viva de suas personagens. Não há escapatória, a narrativa doce e sutil expõe as violências sofridas por mulheres, suas vivências atingidas por desigualdades e preconceitos raciais e de gênero. As fúrias silenciadas ganham vozes insubmissas e gritam na escrita militante e incansável da autora. O ato de escrever vivências de Conceição Evaristo é um ato de libertação, de partilha, de comunhão dessas histórias caladas por uma sociedade que se configura na cegueira e na surdez às vidas das mulheres negras. 

O conto/relato Isaltina Campo Belo, do livro “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de 2016, é marca de uma partilha sensível da força que subjaz na raiva contida, é a resposta de Evaristo, ou de Campo Belo, à tentativa de destruição do erótico pela violência. E aqui, chamo erótico o que Audre Lorde evoca em seus escritos, “como uma afirmação da força vital das mulheres; daquela energia criativa fortalecida, cujo conhecimento e cuja aplicação agora reivindicamos em nossa linguagem, nossa história, nossa dança, nossos amores, nosso trabalho, nossas vidas.” As mulheres que se expõem nas escrevivências dos contos de Evaristo relatam suas histórias de resistência. 

E há muitas maneiras de compreender e sentir o conto e a partilha da personagem Isaltina Campo Belo. No enredo, quatro mulheres são conjuradas, a narradora, que é acolhida por Campo Belo para coletar sua história, a filha Walquíria, que aparece desde o início em um retrato e logo mais se revela como um fruto da violência, e Miríades, a personagem que emerge como a força do erotismo enfim liberto. Mas a voz que ecoa e nos conta sua vivência é a de Campo Belo, que revela desde o início sua inadequação dentro de um corpo no qual não se reconhece. Desde a infância, ela queria que percebessem essa inadequação, queria que descobrissem seu segredo, afinal de contas, era um menino “por dentro”. E era preciso que as pessoas próximas, como a mãe, a reconhecessem sem que precisasse se pronunciar, como não percebiam? E não se enunciar como menino talvez respondesse a imposições veladas daquela família tão conhecida e bem aceita de pai e mãe trabalhadores, a dignidade de seus ancestrais, todos obviamente com sua trajetória de resistência por serem de origem negra e escrava em uma sociedade branca e patriarcal. No crescimento do corpo, nas fases que se sucedem na vida de Campo Belo, a vontade de subir em árvores como o irmão, a não atração pelo sexo oposto e o desejo de ter ao seu lado uma presença feminina.

Da elegância incomparável de sua narrativa, de repente, irrompe a violência mais crua. Campo Belo é estuprada por cinco homens, um dos quais a quem havia revelado sua real condição. E este mesmo homem que ganhou sua confiança é quem orquestra a tragédia da violação de seu corpo, para que aprenda a ser mulher, já que uma negra deve servir ao sexo, deve servir ao sexo masculino, e gostar. Dessa mesma invasão estúpida de sua intimidade guardada, nasce uma vida, uma mulher, Walquíria, que desde o início do conto, aparece em uma imagem no retrato contemplado por ambas, Campo Belo e a narradora (Conceição?). Mas como não poderia deixar de ser – e confirmando que há muitas maneiras de se ler Conceição Evaristo e suas escrevivências – o fruto da violência é também fruto de amor e entrega ilimitados. Marcada pelo ultraje do estupro, ainda assim, Campo Belo é capaz de amar e se dedicar a sua filha Walquíria. 

As dificuldades e demais batalhas vividas na criação de uma “filha do estupro” por uma mãe solteira e negra, deixa-se que a imaginação dos leitores que preencham com a bagagem de suas próprias consciências históricas, políticas e sociais. Já mais tarde, no fim do relato, Campo Belo encontra, no colégio da filha, a moça a quem decide entregar sua intimidade guardada, Miríades. E descobre então como dar uso a seu erotismo, sua força vital, descobre-se mulher “igual a todas e diferente de todas”. Seu corpo não estava inadequado. “E de repente, uma constatação me apaziguou. Não havia um menino em mim. Não havia nenhum homem dentro de mim”. E a partir de sua força – malgrado todas as dores –, de sua dignidade de mulher negra, de mulher mãe, dá-se a permissão de também amar outra mulher, dá-se ao desfrute de um corpo pacificado, embora para sempre ferido pelo trauma irreparável do estupro. A raiva sufocada cede lugar à potência do afeto. E o registro dessa vivência pela escrita de Evaristo é a maneira encontrada pela autora de construir esse algo tão poderoso capaz de substituir a raiva.

Convém lembrar que a universalidade de sua escrita não se restringe à experiência das mulheres brasileiras originárias da diáspora africana, trata-se de abarcar sentidos múltiplos, de experiências que abrangem as mais variadas pessoas em suas singularidades. A vivência de violências, estereótipos, preconceitos, discriminações, distorções históricas, desigualdades e demais ameaças de aniquilação atravessam muitos corpos, das mulheres e homens cis à toda multiplicidade LGTBQIA+. Trata-se de transformar essa diferença em compreensão e poder. Reconhecer as distorções que herdamos é o primeiro passo para potencializar a aproximação, afetar potências em torno dos mesmos ideais, o que nos torna semelhantes em nossas lutas políticas. No universo da crítica literária, temos um repertório vastíssimo de histórias lidas por um viés sexista, machista, capitalista e misógino. E adentrar esse campo é revirar os cânones, profanar templos sagrados da Literatura.

Na imersão promovida pelo projeto M.A.R., Mulher Artista Resiste – realizada pelo Coletivo Elza, da ilha do Desterro/SC, com apoio do Sesc, dentro do Projeto Sesc Cultura ConVIDA – a escritora, professora, travesti e feminista Amara Moira, condutora da ação “Outras críticas literárias”, propõe trazer leituras que proporcionem questionamentos sobre uma literatura hegemônica. A proposta é buscar caminhos de reinvenção da história literária brasileira a partir de uma leitura crítica dessa hegemonia arraigada em nossa cultura. A partir de leituras colhidas de diversos nomes consagrados apresentados pela propositora, desde o português Mário de Sá Carneiro a Jorge Amado, passando por Jorge de Lima e Guimarães Rosa, entre outros, darei destaque neste texto, ao trecho de “Capitães de areia”, de Jorge Amado. A escolha dessa leitura para ilustrar a crítica do conto de Evaristo é justamente porque o trecho retirado do romance de Jorge Amado descreve também um estupro.

O relato do encontro (do estupro) de Pedro Bala com “a negrinha” no areal, é o retrato emblemático de uma leitura do corpo da mulher negra objetificado, com requintes de uma crueldade sexista e racista. Se pensarmos que poucas décadas depois o romance do mesmo autor, “Gabriela cravo e canela”, eternizaria essa imagem da mulher feita para seduzir e servir, brejeira, disponível, passiva, fogosa, nada surpreende que “a negrinha” da cena do areal tenha sido apresentada de um ponto de vista tão limitado e machista. O ano era 1937, e Jorge Amado já era um dos grandes nomes, se não o maior, da ficção regionalista brasileira. Muito deve-se a ele a imagem que temos hoje do povo baiano, dos cenários rurais ou urbanos, com suas religiões, culturas e costumes. Podemos relativizar o olhar de Jorge Amado e sua escrita sobre o corpo da mulher negra sendo ele tão distante, no tempo, das lutas feministas? Não. Muito antes das teorias feministas, as lutas contra o opressor acontecem desde a primeira mulher nascida no planeta. Nos anos 30, no Brasil, a reivindicação do voto feminino já era uma questão em debate na cena política. Lembrando que o mundo também já assistia, desde o século XIX, às manifestações e algumas importantes conquistas das sufragistas pelos direitos das mulheres. Então, meu caríssimo Amado, não há como relativizar.

Mas vamos ao areal e atentemos a alguns detalhes da narrativa. É interessante observar como o autor descreve as personagens e como a cena da violência é, de alguma forma, “suavizada” pela “incontornável” virilidade do corpo masculino. Pedro Bala não consegue refrear seu ímpeto de desejo perante o corpo da mulher, “seu corpo de menino se sacode como um animal jovem ao ver a fêmea”. Note-se, a mulher é apresentada desde sua aparição como um corpo, um objeto de desejo. E ao se apresentar esse corpo, logo “a mulher” passa a ser “a negrinha”, cujos “seios saltavam ponteagudos e as nádegas rolavam no vestido”. Há uma explicação: “... porque os negros quando estão andando naturalmente é como se dansassem (sic)”. Os estereótipos são solidificados na literatura, a história única, a partir do ponto de vista branco e masculino, vai se inscrevendo na memória coletiva. Corpos negros são corpos desejantes, dançantes e provocativos, de preferência, sem identidade. Voltando ao texto, ressalte-se que a menina de 15 anos é referida como “a negrinha” em repetidas vezes durante toda a narrativa. A violação acontece após uma espécie de “acordo” entre Pedro Bala e a menina. Ela teme perder sua virgindade, sua honra seria desgraçada e ela teria como totalmente arruinada sua chance de se entregar ao amor verdadeiro. Afinal, Pedro Bala, que também tinha apenas 15 anos, portanto sim, apenas um menino, já conhecia todos os segredos do amor das mulheres, “porque os homens conhecem esses segredos muito antes que as mulheres”. Ele a queria porque há muito sentia esse desejo incontido; por outro lado, “a negrinha” não queria porque guardava-se para um mulato que a fizesse apaixonar. 

Seguindo nos horrores da narrativa, ressalte-se que os sentimentos da menina são de um “terror doido”, mas que ainda assim, aterrorizada, ela vacila, e acaba cedendo à investida do menino, desde que ele a penetre por trás. E curiosamente, os sentimentos de Pedro Bala expressados pelo narrador são de angústia, uma tentativa de esquecimento de sua condição social e das histórias da luta sindical fracassada do pai operário, como se houvesse uma justificativa passada, na revolta do menino, para o ato presente de violência bruta consumado ali, na areia da praia. Há, claramente, uma alusão à virgindade da menina dando maior brutalidade ao ato, e a coloca como vítima nessa condição de virgem, quase como se houvesse mais condescendência ao estupro caso a menina fosse uma mulher já vivida e iniciada no sexo. Os requintes da cultura do estupro, a naturalização da violência perpetrada em nome de culpas e biologismos, tudo fica muito evidente. A narrativa desenrola-se até irem embora os dois juntos, a menina profundamente ferida, o menino ressentido e frustrado. 

Se essa cena fosse reescrita de uma outra perspectiva, se a violência, que de fato existe na realidade cotidiana em uma cidade da Bahia ou em outra qualquer, e a consequente frustração de ambas as personagens na cena relatada pelo narrador, seu abandono, sua dor e derrelição – maiores da parte da menina, diga-se de passagem – fossem mais humanizados e contextualizados, sem os discursos estereotipados, talvez pudéssemos ter uma leitura mais ‘generosa’ da cena de estupro de “Capitães de areia”. No entanto, a literatura está aí para isso, a crítica literária precisa reler os cânones e reescrever as histórias que nos constituem como cultura brasileira. Não devemos queimar os clássicos, crucificar os cânones, sem antes colocá-los bem à luz de novas leituras. 

Conceição Evaristo nos ajuda a pensar numa reinvenção da Literatura Brasileira, da  academia e a cena intelectual às literaturas produzidas nas periferias, na medida em que se inscreve nessa cena como pertencimento. Como diria Grada Kilomba, “já não se trata mais da questão de como eu gostaria de ser visto(a), mas sim de quem eu sou”. Uma escrita com suas próprias construções teóricas, interseccional, feminina, negra, com a potência da oralidade e que, portanto, acessa diferentes classes sociais é um caminho possível e já aos poucos sendo conquistado, cada dia mais, em nossos espaços formadores de cultura. Porque as lágrimas são insubmissas.

Luciana Tiscoski

Jornalista e escritora. Doutora em Literatura/UFSC, estágio doutorado Paris X e pós-doutorado em Artes Visuais/UDESC. Com o coletivo Abrasabarca, publicou Abrasabarca, 2018, Editora Medusa, e Revoluta, 2019, Caiaponte Edições. Em 2021, lançou “Área de broca”, livro de contos, Editora Nave. Luciana Tiscoski, Desterro @lu_nicornia @abrasabarca