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Análise Insubmissa das mulheres em lágrimas

Jéssica Marques

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A insubmissão das lágrimas expostas pela Conceição Evaristo no conto “Isaltina Campo Belo” me fez perceber que muitas vezes, nós mulheres pretas, enquanto contamos nossas vidas somos vistas como mulheres fortes exatamente por contarmos as tragédias que nos cercam, tais como as violências sofridas pelas personagens da Conceição, e de tantas outras autoras, que mostram em suas literaturas como o sofrimento negro é lucrativo para a indústria hegemônica branca. 

 

No caso da escrevivência do estupro de Campo Belo, sua aparição foi tão abrupta, que não esperava que fosse acontecer, em uma primeira leitura, assim como a própria protagonista deve ter se sentido ao ser violada, pois estava ainda envolta pela ambientação dos risos e abraços que é relatada no início do conto. Isso sem falar na construção dessa mulher que não se rivaliza com as suas “iguais”. 

 

Ao contrário do estupro no poema “Nega Fulô”, de Jorge de Lima, que também traz um relato bem característico dos tempos da escravidão pelo olhar de um homem branco, há  literalmente uma cadência literária indicando que todas as obrigações da casa eram demandadas para a Nega Fulô, até o momento de ser acusada de roubo e ter como consequência o ‘açoite-estupro’ do Senhor de engenho e o anúncio de que “obviamente” quem teria ‘encantado’ o dono da Casa Grande teria sido a Nega Fulô. Ou seja, a Sinhá vê a escrava como uma ameaça à Casa Grande e não como uma vítima da cultura do estupro, e muito menos como companheira de vida, como no caso da Campo Belo vê a Miríades. Comparar as relações dessas mulheres no poema de Jorge de Lima e no conto de Conceição Evaristo é apenas ilustrativo dessa rivalidade feminina naturalizada e exaltada no poema “Nega Fulô”, porque evidentemente as relações se estabelecem em contextos distantes no tempo e na história, além de serem literaturas bastante singulares, cada uma em seu registro social e poético.

 

    A partir dos comentários das ‘imerses’ da oficina Outras Críticas Literárias desenvolvida com a Doutora Amara Moira, que propôs uma releitura do Conto “Isaltina Campo Belo”, percebo que em um primeiro momento me detive apenas ao fato do estupro, pois foi o mais chocante e repulsivo ato da narrativa, de forma que a questão de gênero ficou no meu inconsciente apenas como uma pessoa que reprimiu seus desejos até se encontrar com seu amor por Miríades. 

 

 Os trechos “amarrava os meus desejos por outras meninas” e “foi então que o menino que habitava em mim reapareceu crescido” assim como Amara, Alessandra e Rafaella falaram no segundo encontro da Imersão, são referências possíveis de mulheridades, de uma questão de gênero que coexiste e que perpassa a percepção de si, e muitas vezes essa condição de violência pode modificar essa visão de gênero e passar a ser uma questão de sexualidade, já que ser homem nessa nossa sociedade é se ver num lugar de agente da violência, num lugar de poder sobre as mulheres, que nem todo homem deseja, e por isso podem ser também ‘estranhos no ninho’, assim como os ‘indivídes’ trans na nossa sociedade.

 

Um outro ponto que gostaria de acrescentar é que nessa segunda leitura tive a impressão de que a Miríades já não está entre nós, mortais, pois ao final do texto é dito “Hoje, Miríades brinca de esconde-esconde em alguma outra galáxia. Ela jaz no espaço eterno”. Essa constatação me levou a pensar que ainda estamos vivenciando os estereótipos de que os amores homoafetivos são retratados na literatura cotidianamente como efêmeros. O que nos leva à questão da escolha literária da Conceição de representar o romance da Campo Belo e da Miríades em conjunto com essa realidade da solidão da mulher preta. Por mais que somente a própria possa atestar essa intenção, ao relatar o derramar dessas insubmissas lágrimas, fica aqui o meu apelo para que haja mais sorrisos e menos lágrimas na nossa literatura negra contemporânea.

JÉSSICA MARQUES Belo Horizonte- MG @jess.marques.art. Uma mulher negra apaixonada por escrever e ilustrar universos imaginados! Formada em Cinema de Animação e Artes Digitais, pela UFMG, e Pós graduada em Escrita Criativa, pela PUC Minas.

Vive nesse mundo regido pela criatividade e aprendizagem. Nesse caminho é designer gráfica, Ilustradora e uma das autoras de algumas coletâneas como esta que está lendo!