Rastros da performance

Gestos decoloniais: tentativa 001

Performance de Letícia Haines

registros de Marianella Colucci

Curadoria: Juliana Crispe

A performance Gestos decoloniais: tentativa 001 foi idealizada por Letícia Haines para ser acionada nos espaços que envolvem o Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza para a 2ª edição do evento Mulher Artista Resiste. É um trabalho site specific e se insere em uma cartografia que vem sendo criada entre a artista, seu corpo e os atravessamentos territoriais que cada lugar lhe proporciona desde meados de 2016.

 

Através da performance, a artista busca tecer linhas que atravessam o lugar onde se instala o Coletivo - o casarão de arquitetura açoriana, tombada como Patrimônio Histórico e Arquitetônico - e seus entornos: a praia, o jardim e o bairro Sambaqui tentando criar uma rede de sentidos potentes. A artista trabalha com o reposicionamento de objetos - espelhos, molduras e uma Begonia coccinea - a fim de transmutar sentidos em uma investigação por gestos decoloniais capazes de pequenos refazimentos de mundos destruídos pela colonialidade.

 

Cada gesto e cada objeto ganha sentido a partir de relações simbólicas. Os espelhos carregam representações em molduras românticas, são “presentes” trazidos pelo colonizador. O ato de quebrá-los é uma tentativa de romper com tais representações estereotipadas: a mulher, a paisagem natural idealizada, uma forma arquitetônica. Fragmentados e libertos de suas molduras coloniais, eles podem multiplicar sua reflexão ou aproximar-se de seu estado mineral misturados à terra. A terra em sua capacidade de nutrir e multiplicar também é apropriada pelos mecanismos coloniais. A mata se transforma em jardim, algumas plantas geram mais valor que outras e assim como a terra e certos corpos são exploradas e vendidas. A Begonia coccinea é uma planta nativa da Mata Atlântica e muito procurada para ornamentação de ambientes por ser considerada “luxuosa”. A colonialidade exotifica o que é nativo. A performance atua por meio de deslocamentos a fim de potencializar os lugares de cada coisa. Por fim, as molduras vazias são suspensas ganhando mobilidade e agora são atravessadas pelas forças da paisagem.

 

A performance foi transmitida ao vivo dentro da programação do M A R 2020. Portanto, ganha mais uma camada de sentidos através da participação de Marianella Colucci, responsável pelo acompanhamento da performance e transmissão através do vídeo. Nesse formato, a relação entre performance e expectadores é mediada pela câmera e pelo olhar daquela que registra a ação. A performer e a cinegrafista criam um jogo de movimento, procura e fuga através dos reflexos dos espelhos. Essa nova camada adiciona a performance outras perguntas: o que viu a artista nos espelhos? O que viu Marianella? O que foi captado pela câmera? Qual a potência da ação assistida na tela plana?

 

A performance "Gestos Decoloniais: tentativa 001" trata de questões urgentes: a violência epistêmica e o direito às memórias e suas possibilidades de (re)invenção. Propõe através do gesto artístico a abertura de diálogos para além de representações estereotipadas. A proposta ganha força a partir da participação da Marianella que traz em seu olhar e através de suas imagens a potência daquilo que pode permanecer em imagem. Assim, apresentamos os registros fotográficos a seguir como rastros que permanecem de uma ação.

Fotografias digitais (dimensões variáveis) por Marianella Colucci

Edição das imagens por Marianella Colucci e Letícia Haines

Sobre as artistas:

Letícia Haines

artista-performer-professora-pesquisadora-dj-etc

Licenciada em Artes Visuais pela UDESC. Mestranda em Artes Visuais pelo PPGAV-UDESC na linha de ensino das Artes Visuais. Pesquisa e busca práticas de arte-vida decoloniais e que possibilitem (re)existências poéticas/políticas. Interessada em experimentações artísticas e educativas que atravessam questões sobre o corpo em suas relações com paisagens, territórios, regimes disciplinares, outros corpos, afetos etc.

Participou e expôs trabalhos em residências, festivais e exposições em Palmas (TO), Oiapoque (AP), Recife (PE), Vitória (ES) e Florianópolis (SC).

 

Marianella Colucci

Fotógrafa-Cinegrafista-Documentarista-Editora-Realizadora e Produtora audiovisual-Arquivista de vídeos.

Formação em Cinema e Televisão na Universidade Nacional de Córdoba, Argentina.

Pesquisa em gêneros cinematográficos, estruturas narrativas, criação de personagens e arquétipos como elementos repetidos que criam fórmulas ou padrões.

Tem interesse em documentar as diversas práticas ancestrais, culturais e artísticas realizadas por mulheres na América Latina e América Central

Essa exposição faz parte do evento MULHER ARTISTA RESISTE – 2ª edição

 

RASTROS DA PERFORMANCE GESTOS DECOLONIAIS: TENTATIVA 001

Performance de Letícia Haines e registros audiovisual e fotográfico de Marianella Colucci

Curadoria: Juliana Crispe

Produção Cultural das exposições em Artes Visuais: Lorena Galery

 

Realização: Espaço Cultural Armazém - Coletivo Elza

Coordenação Geral: Gika Voigt, Juliana Crispe e Virgína Vianna

Organização Coletiva e curadoria compartilhada: Grupo de Trabalho MULHER ARTISTA RESISTE

Apoio: Abrasabarca, Coletivo Compor, Gandaia Films, Mulamba, Potlach Editora e Grupo Articulações Poéticas

Produção: Gika Voigt Produz

Vinheta: Gandaia Films (com música da banda Mulamba)

Equipe técnica: Gika Voigt e Marianella Colucci

Equipe de comunicação: Gika Voigt, Juliana Ben, Juliana Crispe, Lorena Galery, Marianella Colucci  e Virgína Vianna

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