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Rastros da infância

Nlaisa Luciano Gaspar Mesquita

Gargalhadas que trazem a sensação de uma intimidade antiga após um sorriso e um abraço desajeitado. Boas vindas a um conto que se estabelece a partir de uma cena sinestésica, onde “a sonoridade de nossos risos, como cócegas no meu corpo [...]” nos convida a entrar nessa narrativa encontrada nas 13 “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” de Conceição Evaristo. Intitulado “Isaltina Campo Belo”, o conto relata e ata memórias de uma vida que narra a própria história e é colhida pela primeira voz que se anuncia descrevendo os primeiros momentos da cena, ali, instaurada. Aqui, nessas impressões escritas sobre minhas percepções, Campo Belo será chamada da forma que gostava. 

É interessante perceber como essa narrativa é acompanhada por uma fotografia que “não nos abandonou, ora nas mãos de Isaltina, ora nas minhas.” Na fotografia, estava Campo Belo e sua filha Walquíria. Um retrato contemplado e contemplando tudo o que é dito ao longo do conto e, assim, nos faz pensar como um relato se inicia contando, não só uma história de vida, mas uma história que considera sua família: de um pai, uma mãe, uma irmã e um irmão. A voz que fora cedida para Campo Belo alcança uma contextualização associada à história do século dezenove, territorializada numa cidade e, orgulhosamente, resgata “a luta de seus antecedentes pela compra da carta de alforria”.

A narrativa nos coloca em reflexões importantes a partir de uma voz que, ao narrar partes de sua trajetória, remonta memórias da infância. O trecho “só uma dúvida me perseguia” tomou de assalto minha atenção. Agora, debruçada num olhar curioso sobre o que poderia ser desfiado desse texto, rastros da infância de Campo Belo se conectaram a rastros de minha infância, declarada num trecho de um texto íntimo e poético que escrevi: “me tornei a pessoa que, na infância, era interrogada. E lembro de todas as interrogações que me cercavam.”. E nessa encruzilhada entre a leitura que fiz a partir do que Campo Belo relatou e a minha escrita, aqui, explanada, questões podem ser abordadas.  

A angústia de uma criança que se sentia um menino e não era percebida pelas pessoas e que apontava alguns erros, sobre seu nome, vestimentas e tratamentos, direcionados ao engano que todos cometiam. Simbolicamente, é possível traçar uma leitura sobre um corpo-território: como se “Campo Belo” não só nomeasse uma pessoa, mas também pudesse nomear um lugar. Um território a partir do corpo que guardou, por um tempo, um menino. Há possibilidades de imaginar, talvez, esse menino brincando livre nesse belo campo? Campo Belo carregava um menino dentro de si e esperava que um dia ele “poderia soltar suas asas e voar feliz” para fora de seu corpo. Ao longo do conto, fui acometida por algumas situações ocorridas na vida de Campo Belo, até chegar o momento da primeira reunião do jardim de infância da filha Walquíria. Ali, o menino reaparece crescido e traz consigo todas as lembranças, em “imagens embaralhadas”, de tudo vivido pela mulher que se entendeu igual a todas e, ao mesmo tempo, diferente de todas as outras mulheres. Talvez, seu desejo de infância tivesse um desfecho naquele momento da vida adulta: o menino voou, livre, céu acima. Voou pelo campo belo e a deixou mulher, e tal como Miríades, sua companheira, agora ele “jaz no espaço eterno”. 

Nlaisa Luciano Gaspar Mesquita  @nlaisa.luciano

Filha de Maria de Fátima Luciano e cria da Maré - RJ, onde atua como educadora popular e integra a coordenação do pré vestibular do CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré). É graduanda em Letras na UFRJ, pesquisa Memória a partir do Museu da Maré e atuou na Extensão, por dois anos, no GEM (Grupo de Educação Multimídia) com linguagem audiovisual. Compõe o grupo de Teatro do Oprimido MareMoTO, é ativista das pautas LGBTQIA+ com foco racializado em gênero/transgeneridade, sexualidade e pensa os temas a partir de performances e intervenções artísticas.